Por que ensinar valores?
ILÁZARO FIGUEIREDO

Dizer a uma criança de cinco anos para que coma salada, porque salada “faz bem” não a induz
a devorá-la. Se o fizer, fará para agradar a mãe ou, pior ainda, comerá salada “apesar de
detestá-la”, porque ainda que não ouse revelar, tem medo da mãe. A criança não gosta das
saladas não porque a química que compõe seu organismo a rejeita, mas sim porque não
compreende porque deve comer salada. As palavras da mãe não garantem a convicção e em
seu nível de conhecimento, comer salada não faz qualquer sentido, ao contrário, por exemplo,
de entupir-se de guloseimas. Em verdade, quem recusa a salada na criança não são as suas
células gustativas que caracterizam o paladar, mas seu cérebro, pois o cérebro humano jamais
aceita o que não lhe faz pleno sentido.
A referência à salada e a circunstância da criança são apenas exemplos simbólicos. Em
qualquer idade, somente gostamos do que possui sentido e por esse motivo não somos
capazes de decorar um punhado de palavras esdrúxulas, como por exemplo “murufratagitrari,
brucutrape, saratripiu”, mas guardamos com carinho o recado gostoso de que “amanhã será
domingo de sol e a praia nos espera”. Se pensarmos bem, a aparente dificuldade da memória
para registrar os dois recados acima é absolutamente a mesma, mas fixamos a segunda e não
a primeira porque a segunda faz sentido. Em síntese, o “combustível” do cérebro humano é
sempre a “significação” e quando tentam nos enfiar na memória frases sem essa essência,
reagimos como reage a criança diante da salada imposta.
É por esse motivo que é importante ensinar valores.
Os valores não são, como habitualmente se pensa, atributos desejáveis ao ser humano, ou
fundamentos da dignidade da pessoa, ou objeto de escolhas morais, ou qualidade que pode
fazê-lo mais ou menos bonito no contexto social. Ao contrário, os valores são os alicerces da
humanidade, a essência da preservação da espécie e o “alimento” que integra e faz prosperar
os grupos sociais. Mais que isso, “Valores” são, em última instância, aquilo que pode ser
vivenciado como algo que faz sentido e, dessa forma, como tudo quanto dá razão à vida. A
vida biológica do homem, tal como a vida biológica da mosca, não necessita ser vivida.
Representa simplesmente uma circunstância evolutiva, um acidente orgânico e, dessa forma,
basta durar apenas o tempo para se reproduzir. Com essa missão orgânica concluída, a vida
não tem mais motivo e morrer ou não constitui apenas um acidente que termina um outro que a
gerou.
Mas, o homem não é apenas constituído por uma vida biológica. É uma vida que alcança a
plenitude do sentido porque ama, sofre, constrói, se zanga, se surpreende, foge da tristeza,
anseia pela felicidade, cultiva a simpatia, exibe compaixão, embaraça-se, assusta-se com a
culpa, cresce com o orgulho, mortifica-se com a inveja e por isso tudo causa espanto e
admiração, indignação ou desprezo. Sem sentir-se “inundado” pelas emoções e pelos valores,
a vida não é vida e se fosse possível não tê-los, bastava ao homem passar pela vida e não
viver”.
É por esse motivo, insistimos, que é importante ensinar valores.
Mas se não se duvida dessa importância, é essencial que se descubra que ensinar valores tal
como se insiste com a criança que coma salada, implica em sua rejeição ou, pior ainda, em um
domínio sem compreensão, uma aprendizagem sem significação, logo rejeitada pelo cérebro.
Valores não se ensinam, pois, com conselhos.
Nada contra os conselhos. Se bonitos e bem intencionados até que não ficam mal em quem
quer que seja. Mas, acredita-se que possam ser “apreendidos” representa uma outra história.
Os valores, tal como as saladas, precisam de momentos certos para serem mostrados e,
sobretudo, necessitam de exemplos para serem explorados, circunstâncias específicas para
que sejam compreendidos, ambientes emocionalmente preparados para que sejam discutidos.
Assim como não se discute a boa intenção da mãe em tentar empanturrar seu filho de cinco
anos de saladas, também não se discute a intencionalidade de se ensinar valores de forma
discursiva. Isso até pode ser satisfatório para a consciência de quem transmite, mas
certamente é inútil para o cérebro de quem acolhe. Se é que acolhe.

0 comentários:

Postar um comentário